Um rosto na multidão























originalmente publicado em
http://objethos.wordpress.com/



Quando a jornalista Marcia Jeffries (Patricia Neal), foi a um presídio, nos idos dos anos 50, ela esperava achar um ou outro personagem curioso que interessasse ao programa de rádio “Um rosto na multidão”. Ali, ela encontra Larry “Lonesome” Rhodes (Andy Griffith), um encrenqueiro e ex-presidiário alcoólatra que fará sucesso com suas músicas no violão e com o estilo stand-up comedy de falar ao público.

Em seguida, Lonesome Rhodes ganha um programa próprio na principal rádio da cidade (fictícia) de Pickett, no estado norte-americano do Arkansas. Não passará muito tempo até que ele seja contratado por emissoras de televisão de outros estados, até chegar a Nova York, onde ele terá a oportunidade de ser visto e ouvido por quase todo o país.

Um rosto na multidão é baseado no conto The Arkansas Traveler, cujo escritor, Budd Schulberg, é também roteirista do filme. O projeto foi a oportunidade que o diretor Elia Kazan (Uma rua chamada pecado; A Luz é para Todos; Viva Zapata!) encontrou para refletir sobre a época em que o rádio estava sendo substituído pela televisão como meio de entretenimento.

Assim, acompanhamos a transformação por que passa o personagem de Lonesome Rhodes, que vai de queridinho da cidade pequena a grande apresentador de televisão de uma metrópole.

Rhodes conquista os ouvintes e os primeiros telespectadores exibindo um jeito simples de ser e de tratar as pessoas, um sujeito caipira sincero que se recusa a anunciar os comerciais dos patrocinadores – “esses comerciais… minha boca se recusa a dizê-los” – e que consegue arrecadar dinheiro para uma pobre desabrigada ou para um garoto de cadeira de rodas.

Mas tudo se modifica quando ele chega em Nova York para apresentar um programa de ampla divulgação. Sabemos que Lonesome Rhodes já não é mais o mesmo quando ele anuncia, com estardalhaço, o produto dos patrocinadores – as pílulas de suplemento alimentar Vitajex. Daí, só mais alguns passos até que o caipira simpático se transforme em um magnata inescrupuloso, chegando a chamar de “ovelhas que fazem tudo o que eu mandar” àqueles que o assistem.

Obcecado pelo Ibope e pelo prestígio, Lonesome Rhodes não enxerga mais nada a não ser a fama e o glamour que a TV, instrumento de persuasão da massa, segundo um dos produtores do programa, lhe trouxe. Repare nas cenas em que ele está fora do ar: todas as conversas giram em torno do aumento do número de telespectadores. O resultado é previsível e imortalizado na cena em que o ex-presidiário desce do elevador junto com a audiência do programa.

Alguns personagens da trama foram baseados em pessoas reais, como em Tennessee Ernie Ford, que, a partir de uma canção, conseguiu um programa semanal na rede NBC. Ou, ainda, em Arthur Godfrey, astro da CBS que costumava não anunciar produtos os quais não acreditava.

Na época do lançamento, em 1957, “Um rosto na multidão” foi timidamente recebido pelo público e pela crítica. Do culto ao apresentador ao poder que as pessoas delegam a alguém que fala atrás de uma tela. Da falta de memória do público à espera do próximo fenômeno da televisão. À luz dos tempos, analisando a obra cinquenta e dois anos depois, a impressão é de que o assunto ainda é assustadoramente relevante e atual.

FICHA TÉCNICA
Título original: A face in the crowd

1957, EUA
Com Andy Griffith, Patrícia Neal, Anthony Franciosa, Walter Matthau
125 minutos
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Budd Schulberg
Produção: Elia Kazan
Direção de Arte: Richard Sylbert e Paul Sylbert
Edição: Gene Milford

(Fonte: IMDB)

Iracema, uma transa amazônica





















Em 1974, Jorge Bodansky, Orlando Senna e Wolf Gauer desenvolveram uma experiência radical de hibridização entre o registro ficcional e não-ficcional. A idéia surgiu quando Bodansky, que era fotógrafo da Realidade, a revista de reportagens especiais da editora Abril nos anos 60, esteve na rodovia Belém-Brasília. Ali, ele testemunhou a movimentação de caminhões, bem como as queimadas, o desmatamento, a miséria e a prostituição infantil.

Observando o cotidiano que se engendrava naquele ambiente, ele decidiu retratar a população local, com imagens do dia-a-dia, em paralelo com o caminho do motorista Tião Brasil Grande (Paulo César Peréio) e da jovem Iracema.

No contexto da ditadura do governo Médici (1969-74), a construção da BR-230 era um dos carros-chefe do desenvolvimentismo que a nação – “Brasil Grande” - elaborava de acordo com as diretrizes do chamado Milagre Econômico. Assim, o personagem do caminhoneiro Tião é perpassado de ironia a todo o momento. Ironia essa que custaria caro para o projeto. Produzido para uma televisão alemã, os militares utilizariam esse argumento para censurar Iracema que, como produção estrangeira, não representava o Brasil nem os brasileiros. O filme só foi liberado em 1981.

Com o compromisso social de fazer do cinema uma denúncia, revelação e interpretação das mazelas do país, Jorge Bodansky, Orlando Senna e Wolf Gauer expõem situações de violência, exploração e dominação de classe, em uma Amazônia nada familiar.

Se o filme contribui para complexificar a realidade e as informações que temos sobre o norte do país, é a Tião Brasil Grande que devemos essa provocação. Como espécie de anti-herói, o personagem de Pereio é um provocador que toma atitudes condenáveis pela insensibilidade de não enxergar a humanidade nos outros. Para ele, tudo se trata de “ser esperto” e “saber se virar” e é desse jeito que ele se transforma em imagem metafórica do Brasil, que expande suas fronteiras mas explora, degrada e humilha nesse meio tempo. Com Iracema, a realidade bate à porta. Nada de imagens agradáveis, bonitas e triunfalistas sobre a Amazônia. É hora de ver a poeira provocada pelos caminhões que embaçam a visão e poluem o ambiente com fumaça escura. É hora de ouvir a serra elétrica que corta as árvores sem lei, ordem ou consciência ambiental. É hora de ver a índia prostituta, pobre, desdentada e suja. É hora de ver.

Notas - "Na pior em Paris e Londres"












"Quando você se aproxima da pobreza, faz uma descoberta que supera algumas outras (...). E há outro sentimento que serve de grande consolo na pobreza. Acredito que todos que ficaram duros já o experimentaram. É um sentimento de alívio, quase de prazer, de você saber que está, genuinamente na pior. Tantas vezes você falou sobre entrar pelo cano - e, bem, aqui está o cano, você entrou nele e é capaz de aguentar."

George Orwell, pseudônimo de Erich Arhtur Blair, nasceu em 1903 na Índia. Depois de trabalhar como policial do Império Britânico na Birmânia, ele decidiu investigar o modo de ser da população que vivem à margem da sociedade. Quis viver como um pobre. Em primeira pessoa, o escritor relata seu caminho por Londres e Paris, onde passou fome por dias antes de conseguir um trabalho como lavador de pratos em um hotel.

Em suas reflexões, o escritor que se tornaria célebre por 1984 e A Revolução dos Bichos, fala sobre o que poderia ser feito em relação aos mendigos. Sugerindo que os albergues tivessem um esquema em que os mendigos pudessem trabalhar para se sustentarem, algo como uma horta de onde tirar alimento, o autor admite a inutilidade da vida de um vagabundo, mas se esforça para pensar possibilidades de melhorá-la. Os albergues, assim, não seriam auto-suficientes, "mas poderiam percorrer um bom caminho nessa direção e, a longo prazo, os impostos provavelmente se beneficiariam disso. No sistema atual dos anos 30 - que se estende aos dias de hoje - o mendigo é considerado peso morto e vivem em uma dieta que acaba por destruir a saúde.

Trata-se de um plano para fazer com que vidas humanas - estigmatizadas por preconceitos como "todo mendigo é bêbado", "descarados parasitas sociais", "perigosos" - sejam vividas de modo mais descente e digno, "melhorando a condição dos mendigos sem impor mais ônus às localidades".

A gênese do Jornalismo













O professor português Jorge Pedro Souza (Universidade Fernando Pessoa e Centro de Investigação, Media e Jornalismo) esteve na UFSC no início do mês para ministrar uma oficina sobre História do Jornalismo.

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A transmissão de informações é uma de sobrevivênvia, uma vez que a troca de informações foi vital à evolução do ser humano. Há três vertentes acerca do fenômeno jornalístico:

1) Existe desde a antiguidade porque desde ali existem dispositivos e meios para a troca regular e organizada de informações.

2) É uma invenção da Modernidade, estando ligado à aparição da tipografia e ao surgimento, expansão e aquisição de periodicidade da impensa na Europa, embora tenha como antecedente imediato as folhas noticiosas volantes, manuscritos e impressos que surgiram entre a Baixa Idade Média e o Renascimento. As condições técnicas são vistas, aqui, como essenciais para o surgimento de Jornalismo.

3) Nasce no século XIX devido ao aparecimento de dispositivos técnicos (impressoras e rotativas), que permitiram a massificação do jornais, além da invenção de dispostivos auxiliares que facilitavam a transmissão de informação à distância (telégrafo e cabos submarinos) e máquinas fotográficas. Assim, criam-se as agências noticiosas internacionais.

São três posições que não se excluem. Jorge Pedro Souza, no entanto, defende a tese da origem sócio-cultuiral do jornalismo, afirmando que sua gênese provém da Antiguidade. É assim que ele explica que ao longo dos tempos, fixam-se as formas de transmitir notícias contando história, que se iniciam nos contributos da retórica clássica greco-romana: quem, quando, como, o que, onde, porquê.

Outra contribuição ao jornalismo vem da literatura clássica, no jeito de contar a história antecipando o final, hierarquizando informações. Daí o que conhecemos como lead, o primeiro parágrafo da notícia.

Entre outras contribuições, temos a narrativa cronológica, a historiografia, intenções de verdade (tipo de relato que se vincula aquele que aconteceu, factualidade e explicações humanas para ações humanas), as efemérides (registros de acontecimentos relevantes difundidos por toda a Grécia), as crônicas e registros históricos e geográficos, os relatos de viagem.

Tentando responder a pergunta "Por que as notícias são como são?", o professor conta que desde a Antiguidade que se contam novidades ao público. A informação estaria ligada à sobrevivência no que diz respeito à preservação da memória e cultura, que originou relatos geográficos e historiográficos, orais e escritos, que se dividiam em duas partes: os míticos e os não míticos. Estes, por sua vez, geraram a forma das notícias.

Comitê Internacional da Cruz Vermelha no 60º aniversário da última Convenção de Genebra



















“Na História, sempre acontece assim: primeiro vem um ato terrível para depois se criarem normas para evitar que ele se repita.” Foi a partir daí que o assessor jurídico do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o argentino Gabriel Valadares, pontuou as Convenções de Genebra em uma linha de acontecimentos relacionados em causa e efeito. Aos 60 anos do quarto e último tratado que delimitou normas em conflitos armados internacionais, Gabriel Valadares e Michel Minning - chefe da delegação da Cruz Vermelha para o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – participaram do 8º Curso sobre Jornalismo em situações de conflito armado e outras formas de violência.

Se o 60º aniversário da última Convenção é um marco para o Direito Humanitário Internacional (DIH), não menos importante é mapear os locais de conflito que mais miséria, pobreza e carnificina geram na atualidade. Como na Somália, que vive há vinte anos em guerra e, para agravar a situação, ainda convive com uma seca que prejudica a colheita, deixa o gado em condições precárias e projeta uma insegurança alimentar na população, estimada em 8,3 milhões de habitantes dos quais 100 mil são refugiados.

Esse cenário de conflito está presente, em maior ou menor grau, em países como o Sudão, Paquistão, Iraque, Afeganistão, Congo, Sri Lanka, Israel. E é essa a área de atuação da Cruz Vermelha, que conta com 12 mil funcionários e estimativa de gastos anuais em US$ 1 bilhão, financiados voluntariamente por meio de contribuições de governos signatários das Covenções de Genebra, por organizações supranacionais, como a União Européia, e outras fontes públicas e privadas.

“Nós não temos que responder aos estados, como tem que fazer a Organização das Nações Unidas. O CICV é independente”, explica Michael Minning. “É assim que atuamos livremente em favor das vítimas de conflitos em todo o mundo.”

É por isso que a organização não faz denúncias ou declarações de juízo de valor sobre os lados opostos de um conflito. “Em tempo de guerra, nem tudo é permitido”, avalia Gabriel Valadares. “Não se trata de justificar as ações nos conflitos, mas diminuir o sofrimento das vítimas.”

Notas - "Meu querido Vlado"















* Ditadura militar – ano de 1974. Com o fim da guerrilha do Araguaia, a luta armada de oposição ao regime se dissipou. Foi derrotada pelos militares. Os universitários de então preferiam votar nulo a votar em algum parlamentar do MDB. Não viam motivos de remar contra a maré. Era besteira, inútil, contraproducente. Então muitos deles, notadamente quem estudava na Escola de Comunicação e Artes da USP, usavam roupas estranhas, deixavam o cabelo sem pentear e passavam o dia olhando para o sol e promovendo corridas de tartaruga.

* Vlado se dirigindo à sua esposa, Clarice: “Só existem duas organizações no país com estrutura e condições de lutar contra a ditadura: a Igreja e o Partido Comunista. Como judeu, não posso entrar para a Igreja...”

* A Colina – sítio em Itapevi (Grande São Paulo) era ainda mais clandestino e blindado que os DOI-CODI.

* Ensinamentos de Vlado:
“Um telejornal de emissora do governo também pode ser um bom telejornal. Para isso, não é preciso esquecer que se trata de emissora do governo. Basta não adotar uma atitude servil.”

* Paulo Markun também foi torturado. Mas sua memória lhe prega peças durante os quinze dias em que esteve preso. São lacunas que não lhe esclarecem alguns dados nem o trajeto que percorreu. “Mas jamais esquecerei a sensação de colocar sobre a cabeça o capuz que nos entregaram mais adiante e do cheiro assustador daquele pedaço de pano negro.”

“O mais assustador era aquela mistura de ruídos. Portas batendo com força, gritos dos torturadores, urros de dor vagos e imprecisos, um rádio muito alto...”

“Entrei numa sala onde me obrigaram a tirar a roupa. Da sala ao lado, eu ouvia os gritos dos torturadores e a voz de Dilea respondendo. Percebi que minha mulher começava a ser torturada.”

Havia algo estragado ali dentro

Primeiro o coração disparou. Tanto e tão forte que quase saiu do peito. Depois veio a sensação de vazio, algo estragado, um podre interior que deixa tudo melancolicamente triste. Onde está a substância do cérebro que devia ser expelida agora para contrabalancear a sensação depressiva? Onde está a alegria?

Tudo isso era fruto de um pesadelo agitado, um sonho atemorizador que lhe fez sentir-se ruim. Estava mal, queria desligar-se de tudo sem entender o porquê.

A sala estava mal iluminada pelas primeiras horas da manhã. Na parede antes de chegar ao teto, os três triângulos filtravam as luzes iniciais do dia. Ele estava deitado no sofá-cama em uma sala em que outras cinco pessoas também dormiam, todas profundamente.

Foi tudo rápido e instantâneo. Ele acordou assustado pelo sonho ruim, mas já não se lembrava de quase nada quando abriu os olhos. Só do olhar arregalado do companheiro com quem dividia o sofá-cama. Sustos noturnos, sonambulismo ou qualquer coisa que o valha...

Assim que acordou, sentiu que não era a única pessoa acordada - havia alguém que não se encontrava ali quando ele foi se deitar na noite anterior.

De repente, compreendeu. Não teve tempo de refletir. A dor aumentava, mas tudo o que ele teve que fazer foi aceitá-la e se levantar de uma vez por todas. Era hora de ir.

Ao pé da escada, como lhe dissera a intuição, havia uma mulher alta, de costas, vestindo um capuz e um sobretudo negros. Quando sentiu sua presença, um arrepio rápido, frio e cortante lhe passou pelo corpo. Ele já tinha entendido e não pôde, por falta de tempo ou de alguma coisa mais forte, refletir no que fazia. Sem falar nada, com passos inseguros e instáveis, ele se limitou a seguir a sombra da mulher encapuzada. Era hora de ir embora com a Morte.