
Em dado momento da projeção de Estamos Juntos, dois personagens estão refletindo sentados no topo de um prédio quando um deles diz:
- Eu acho que o céu de São Paulo é o inverso. Para ver as estrelas, você tem que olhar de cima para baixo.
Esse momento lírico, que nos traz as dúvidas e incertezas de personagens esmagados pela realidade da cidade grande, logo é substituído pela volta de uma trama que a todo o momento se opõe à narrativa que o filme tenta desenvolver.
Escrito por Hilton Lacerda, o longa conta a história de Carmen (Leandra Leal), uma médica que mora na cidade de São Paulo. O melhor amigo de Carmen é Murilo (Cauã Reymond), que é apaixonado pelo argentino Juan (Nazareno Casero, a revelação do filme). Quando Carmen subitamente se vê envolvida em um triângulo amoroso, ocorre uma situação inesperada que a faz repensar a vida.
As pequenas coisas (a cena do prédio) se perdem nos grandes temas que o filme tenta enfocar, mas que não o faz satisfatoriamente já que a narrativa não une elementos como pobreza e riqueza, a relação médico e paciente, amizade e solidão. Em vez disso, o filme se perde na brecha entre expectativa e resultado.
Entre a visão cinzenta dos prédios de São Paulo, o filme caminha entre a opressão e a angústia de uma médica cheia de sonhos. Alternando planos amplos de imagens aéreas da cidade com closes fechados do rosto dos personagens, Estamos Juntos é uma tentativa frustrada de um ensaio sobre a melancolia típica das grandes cidades, onde, por mais que estejamos rodeados por milhões de pessoas, estamos, na verdade, sozinhos.