- ¿Qué estudias vos?
- Periodismo.
- Ah, que lindo!
¡¡Puedo morir feliz ahora!!
Viajar dói. Sério! É difícil. Voce sai de um lugar onde, na maioria das vezes, está tudo tranquilo, tudo acertado, sem altos nem baixos. A lei do menor esforco diz para n ão viajarmos e nos acomodarmos onde estamos, mas nada seria do jeito que é hoje se o homem não saísse de seu lugar de origem para desvendar outros mistérios e tentar conhecer o desconhecido...
Estou meio tenso em fazer essa viagem para Córdoba. Como naquela em que fiz para Floripa, devo enfrentar uma cultura diferente e um lugar novo e sem conhecer ninguém. Isso é um pouco complicado, mas tenho convicção de que valerá a pena.
A propósito, essa viagem de avião, depois de algumas que já tive oportunidade de fazer, foi aquela em que verdadeiramente observei pela janelinha. E vi que a cidade de São Paulo se parece com os cenários expressionistas de filmes alemães do comeco do século XX, com prédios que, aqui do alto, lembram a arquitetura futurista do filme Metropolis.
No avião, 4 de março de 2008

(www.nyt.com)Juca Teles
Amora em Flor
Boca do povo
São palavras de amor
Essa é a estrofe de abertura da música mais tradicional do carnaval de São Luis da Paraitinga, cidade localizada a cinqüenta minutos de Taubaté, em São Paulo, e conhecida como “opção de bom carnaval fora dos grandes centros” pelo jornal norte-americano The New York Times. Pois é, ao lado de Laguna (SC), Ouro Preto e Diamantina (MG) e Morro de São Paulo (BA), a pequena cidade de São Luis, com pouco mais de dez mil habitantes, viu passar, no sábado de carnaval, 40 mil pessoas por suas ruas estreitas. Todas ansiosas por um dos poucos carnavais de rua que fazem questão de preservar a marchinha como música oficial.
Acontece que um decreto oficial da prefeitura proibiu ritmos musicais como samba, axé, funk e pagode. É uma tentativa protecionista de manter os blocos com temas e canções específicos, que remetem ao início da década de 20, quando os moradores da zona rural comemoravam o carnaval em bailes de salão antes da missa de quarta-feira de cinzas.
Naquele tempo, foram criados os bonecões, feitos em papel machê para representar a cultura popular, como o Juca Teles, inventado por um antigo oficial de Justiça e poeta da cidade. Além dele, há outros personagens que fazem qualquer folião ficar com as músicas impregnadas na memória, como o motorista Barbosa e a dona Maricota, para não falar da exótica maluquice da “buzina paralisadora”. É assim: várias pessoas juntas, dançando e pulando e cantando até que alguém aperta a buzina. Todos param no primeiro toque e ficam na posição em que estavam. Depois, ao ouvirem o segundo toque, toda a dança recomeça.
Béin! Pausa. Béin, béin!
No domingo de carnaval, eles dois estavam comendo frango caipira na hora do almoço. Era bom abastecer o estômago para o dia de folia em São Luis do Paraitinga.
Depois do almoço, pegaram uma van na rodoviária de Taubaté rumo ao que consideravam “o melhor carnaval de rua do Brasil”. Ali, uma hora depois, estavam no supermercado da cidade para misturar vodca barata a duas caixinhas de suco “del Valle” e beber uma adaptação do drinque “sex on the beach”.
Indo alegres à praça principal, um deles diz para uma menina loira que passava ao lado da amiga morena:
- Olha só! Vc é do Big Brother, não é?
Ela, rindo, pergunta:
- Big Brother?
- É, não é? Você não foi a última eliminada do BBB?
- Hahaha! Eu não sei. Nem assisto Big Brother.
E começaram a conversar. Juntaram os quatro e eles dividiram a bebida com elas. Três litros só para os dois ia ser demais mesmo. Eles compartilhavam o “drinque” e elas buscavam copos com gelo nos bares ao lado. Uma cooperação harmônica entre as espécies.
A morena bebeu demais e saiu com outra amiga loira para “procurar gatos” e dar “beijos coletivos”. A loira que sobrou apresentou outra amiga aos garotos. Um deles ficou com a loira e o outro, com a outra.
E foi assim pela tarde toda. Já de noitinha, a primeira amiga morena voltou bêbada e todos tiveram que levá-la para casa da avó de uma delas. Um sacrifício foi para acompanharem a morena bêbada nos lances de degraus três ruas acima do coreto central da praça.
Conseguiram, afinal. E todas ficaram na casa.
Os dois, vendo-se livres do que apelidaram de “casamento na balada”, seguiram correndo para buscar duas cervejas e participar do bloco “Ninguém é de Ninguém”. Isso era lá pela 0h30.
Imagine só a surpresa deles quando olham pra trás e dão de cara com as duas meninas que tinham acabado de deixar na casa lá em cima. Elas passam por eles cantando a marchinha, enredo do bloco que desfilava nas ruas:
Ninguém é de ninguém, mas todo mundo
É de todo mundo
No carnaval.
Assim é o carnaval.
Felipe pronto pra briga
O pequeno Felipe, um guri que não pára de brincar com um broche dos Guns`n Roses, está sob os cuidados de Enrique, que levará a crianca até o povoado de Fontana. Os olhos brilhantes e o sorriso do pequeno Felipe sao revigorantes e fazem a viagem ser mais suportável.
Eles deixaram o trem faz tempo. Nesse meio tempo, as paradas nas estações são entrecortadas pelos apitos das mulheres e criancas que vagueiam pelos corredores vendendo comidas e bebidas - limonadas em baldes para quem se dispuser a pagar um boliviano pelo copo. A propósito, um real brasileiro vale 3,50 bolivianos no mercado paralelo.
Agora, 21h, estamos longe do destino e de saco cheio com a viagem que, ainda que cansativa, ainda não nos mostrou razão para se chamar “da morte”. Ao menos não para nós.
Dentro do trem
...
Vendedora no trem: crianças trabalhadoras
Saímos por volta das 15h de Floripa em um ônibus executivo com destino a Campo Grande. No banco da frente, um guri que já fez a viagem para Machu Picchu conta algumas de suas experiências: a dor física provocada pelas altas altitudes (“dor de cabeça é o mínimo que você vai sentir, o pior é o ouvido quase estourando...”), a criminalidade, a pobreza e a precariedade da comida boliviana.
Ele me pareceu meio preconceituoso, sei lá. Acho que vê os outros com os próprios olhos em vez de tentar buscar um novo olhar, diferente do seu. De qualquer forma, seu relato me deixou com certo receio.
Em Floripa - e nos lugares pelos quais passamos como Joinville – a chuva era intermitente. Posso ser piegas, mas quem sabe nosso caminho está sendo lavado para que nossa experiência seja revitalizadora... Vai saber...
Visão da varanda do quarto da Bruna, irmã do Gorges
(Nineteen Eighty-Four, Companhia Editora Nacional, 2003)
O que passa pela sua mente quando se pensa em uma sociedade totalitária? Toque de recolher, julgamentos sem o devido processo legal, guerras? George Orwell imaginou, em 1948, um mundo sufocante onde governos tipo Hitler e Stalin seriam coisa de criança quando comparados ao poder do Grande Irmão, o Big Brother.
Clássico do que especialistas chamam de literatura política, 1984 traz um mundo aterrador, dividido em três superestados que estão em guerra permanente. O objetivo da guerra não é vencer o inimigo, mas manter no poder certo grupo dominante. As pessoas não têm liberdade de ir e vir e, muito menos, de pensar. Em grande parte das residências, um objeto chamado teletela “vê” o que todo mundo faz. O Estado detém a memória: todos os registros do que aconteceu antes da chegada do Grande Irmão ao poder foram modificados e sofrem alterações assim que uma notícia, artigo ou opinião entrem em conflito com as necessidades do momento. Nada havia além do Partido: “tudo se fundia e confundia num mundo de sombras no qual, por fim, a data do ano se tornara incerta”.
A coesão interna é obtida não apenas pela opressão, mas também pela elaboração de um novo idioma - a Novilíngua - que impediria que qualquer opinião contrária ao Partido fosse expressa. Trata-se de uma coleção de vocabulários enxutos que condensa ou remove sentidos a fim de restringir o pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passaria a não existir. A palavra mais usada no livro, seguindo o novo idioma, é duplipensar. Seu significado corresponde ao fato de o indivíduo conviver simultaneamente com duas crenças opostas, aceitando ambas.
“Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar."


Eles provaram que não é preciso de gravadora para lançar um disco de sucesso. Em seu sétimo álbum, a banda inglesa Radiohead inovou na forma de comercializar seu trabalho. In the rainbows será lançado no dia 3 de dezembro como um box, contendo as músicas em CD, um disco duplo de vinil e um CD multimídia com faixas adicionais, fotos e letras. Mas qualquer um pode ter acesso às dez músicas do disco baixando pela internet no site da banda. Partindo da idéia “it´s up to you”, cabe a quem faz o download estipular quanto quer pagar pelos arquivos digitais. É você quem coloca o valor que acha que o CD vale, mesmo que seja zero libras.
Musicalmente falando, In the Rainbows preserva as características do Radiohead e mantém a personalidade da banda. Está tudo ali: as letras depressivas, os arranjos melodiosos, além dos elementos eletrônicos e a multiplicidade de sons simultâneos. Mas não é fácil de ser digerido. Não há singles, as músicas são fragmentadas, há ruídos e barulhos que nos obrigam ouvir mais de uma vez antes de sermos capazes de formular qualquer opinião.
As sonoridades não convencionais provocadas por sintetizadores, saindo do básico vocal, guitarra, baixo e bateria, deixam o álbum mais interessante. A propósito, o Radiohead decidiu disponibilizar no download todas as faixas porque consideram que ficar ouvindo músicas isoladas desvirtua a idéia de seqüência. Afinal, o CD foi feito para ser ouvido inteiro, na ordem em que as canções estão. Esse é purismo do Radiohead. Essa é a arte de fazer música independente de ter uma gravadora ou não.
