A ver...

En fin resolví aceptar la idea de tomar el famoso mate. Fui seducido pela conversa de una chica que, todos los días, toma un poco de la caliente bebida.

Entonces, salí hoy en una busca desesperada para comprar las cosas para hacer mate: la bombilla, la hierba, el porongo. Después de andar por horas y horas, logré, finalmente, cuando ya estaba desistiendo.

Vamos ver se pego el gusto pelo famoso mate argentino…

La bióloga y yo

- ¿Qué estudias vos?

- Periodismo.

- Ah, que lindo!


¡¡Puedo morir feliz ahora!!

Hasta...

Viajar dói. Sério! É difícil. Voce sai de um lugar onde, na maioria das vezes, está tudo tranquilo, tudo acertado, sem altos nem baixos. A lei do menor esforco diz para n ão viajarmos e nos acomodarmos onde estamos, mas nada seria do jeito que é hoje se o homem não saísse de seu lugar de origem para desvendar outros mistérios e tentar conhecer o desconhecido...

Estou meio tenso em fazer essa viagem para Córdoba. Como naquela em que fiz para Floripa, devo enfrentar uma cultura diferente e um lugar novo e sem conhecer ninguém. Isso é um pouco complicado, mas tenho convicção de que valerá a pena.

A propósito, essa viagem de avião, depois de algumas que já tive oportunidade de fazer, foi aquela em que verdadeiramente observei pela janelinha. E vi que a cidade de São Paulo se parece com os cenários expressionistas de filmes alemães do comeco do século XX, com prédios que, aqui do alto, lembram a arquitetura futurista do filme Metropolis.

No avião, 4 de março de 2008

"Juno" traz um tema clichê tratado de forma inteligente




Juno (Ellen Page) é uma menina de 16 anos que está grávida. A primeira coisa que passa por sua cabeça é que a futura criança deve ser abortada o quanto antes. Ela vai, então, a uma clínica para obter informações sobre o aborto. No caminho, uma conhecida sua está na frente do lugar com um cartaz e palavras contra o “assassinato de bebês”. Ao entrar lá, Juno se lembra dos dizeres da colega: “O seu bebê tem unhas”. É quando Juno observa, na fila de espera, as mãos das pessoas. Ela reflete por alguns momentos e sai do consultório correndo. Abortar, agora, estava fora de questão.

Essa é uma das cenas mais interessantes da aclamada pela mídia norte-americana como “a comédia independente do ano”. O diretor de Juno (2007), Jaison Raitman, faz com que compreendamos, em alguns closes de mãos das pessoas alternados com o rosto nervoso de Juno e a tensão do ambiente, o motivo de a personagem ter desistido da idéia do aborto.

Juno é uma garota considerada “esquisita” por muitos. Suas roupas tipo camisa xadrez, o gosto por punk rock, o vocabulário que utiliza e o jeito de andar são características de uma jovem não conformista que tenta ser independente. É assim que seduz o amigo Blakeer (Michael Cera), um rapaz bobo e imaturo que não entende a responsabilidade e o dever de estar ao lado da menina a quem ele engravidou. Para Blakeer, se há algum culpado este posto é preenchido por June.

É então que a jovem decide que deve ter a criança e doá-la a quem tenha melhores condições de criar o bebê. Assim, ela conhece Vanessa (Jennifer Garner) e Mark (Jason Bateman), um casal aparentemente perfeito e bem-sucedido.

É nessa relação entre a mulher grávida com os futuros pais adotivos que o talento de Ellen Page fica mais evidente. À vontade no papel de Juno, a atriz consegue facilmente criar um elo com o espectador, que reconhece na figura dela as dificuldades e dilemas enfrentados por uma pessoa que, sem sequer ter saído da adolescência, é obrigada a enfrentar responsabilidades da vida adulta.

Apesar da forte personalidade de Juno – uma mulher que quer se afirmar como independente e madura -, ela carrega o peso de ser mãe sem se sentir preparada para isso. O diálogo com Blakeer, em um dos corredores do colégio, é significativo nesse sentido. Ela, já ostentando uma grande barriga, deixa a bolsa cair.

-Deixa eu carregar sua bolsa? – pergunta ele.
Ao que ela responde, olhando rapidamente para a barriga:
-Que diferença faz mais alguns quilos?

E é justamente nos diálogos que a produção se destaca dos vários filmes já feitos sobre adolescentes que engravidam precocemente. Escrito pela roteirista estreante Diablo Cody, o roteiro ajuda a compor a complexidade da personagem e resiste à tentação de cair em banalidades. Na conversa com o pai desapontado (J. K. Simmons) que diz “sempre pensei que você fosse o tipo de garota que soubesse dizer quando”, Juno responde: “eu não sei o tipo de garota que sou”.

Com isso, o filme não fica na superfície ao abordar um tema bastante comum e igualmente complexo. Apesar do final previsível, um pouco piegas, mas que arredonda a história em um círculo, Juno é um filme que discute algo difícil de uma forma, digamos, adolescente, sem ser infantil ou imaturo.

São Luis do Paraitinga: o carnaval dos mais de 40 mil

(www.nyt.com)



Juca Teles


Amora em Flor


Boca do povo


São palavras de amor



Essa é a estrofe de abertura da música mais tradicional do carnaval de São Luis da Paraitinga, cidade localizada a cinqüenta minutos de Taubaté, em São Paulo, e conhecida como “opção de bom carnaval fora dos grandes centros” pelo jornal norte-americano The New York Times. Pois é, ao lado de Laguna (SC), Ouro Preto e Diamantina (MG) e Morro de São Paulo (BA), a pequena cidade de São Luis, com pouco mais de dez mil habitantes, viu passar, no sábado de carnaval, 40 mil pessoas por suas ruas estreitas. Todas ansiosas por um dos poucos carnavais de rua que fazem questão de preservar a marchinha como música oficial.

Acontece que um decreto oficial da prefeitura proibiu ritmos musicais como samba, axé, funk e pagode. É uma tentativa protecionista de manter os blocos com temas e canções específicos, que remetem ao início da década de 20, quando os moradores da zona rural comemoravam o carnaval em bailes de salão antes da missa de quarta-feira de cinzas.

Naquele tempo, foram criados os bonecões, feitos em papel machê para representar a cultura popular, como o Juca Teles, inventado por um antigo oficial de Justiça e poeta da cidade. Além dele, há outros personagens que fazem qualquer folião ficar com as músicas impregnadas na memória, como o motorista Barbosa e a dona Maricota, para não falar da exótica maluquice da “buzina paralisadora”. É assim: várias pessoas juntas, dançando e pulando e cantando até que alguém aperta a buzina. Todos param no primeiro toque e ficam na posição em que estavam. Depois, ao ouvirem o segundo toque, toda a dança recomeça.

Béin! Pausa. Béin, béin!

No domingo de carnaval, eles dois estavam comendo frango caipira na hora do almoço. Era bom abastecer o estômago para o dia de folia em São Luis do Paraitinga.

Depois do almoço, pegaram uma van na rodoviária de Taubaté rumo ao que consideravam “o melhor carnaval de rua do Brasil”. Ali, uma hora depois, estavam no supermercado da cidade para misturar vodca barata a duas caixinhas de suco “del Valle” e beber uma adaptação do drinque “sex on the beach”.

Indo alegres à praça principal, um deles diz para uma menina loira que passava ao lado da amiga morena:

- Olha só! Vc é do Big Brother, não é?
Ela, rindo, pergunta:
- Big Brother?
- É, não é? Você não foi a última eliminada do BBB?
- Hahaha! Eu não sei. Nem assisto Big Brother.

E começaram a conversar. Juntaram os quatro e eles dividiram a bebida com elas. Três litros só para os dois ia ser demais mesmo. Eles compartilhavam o “drinque” e elas buscavam copos com gelo nos bares ao lado. Uma cooperação harmônica entre as espécies.

A morena bebeu demais e saiu com outra amiga loira para “procurar gatos” e dar “beijos coletivos”. A loira que sobrou apresentou outra amiga aos garotos. Um deles ficou com a loira e o outro, com a outra.

E foi assim pela tarde toda. Já de noitinha, a primeira amiga morena voltou bêbada e todos tiveram que levá-la para casa da avó de uma delas. Um sacrifício foi para acompanharem a morena bêbada nos lances de degraus três ruas acima do coreto central da praça.

Conseguiram, afinal. E todas ficaram na casa.

Os dois, vendo-se livres do que apelidaram de “casamento na balada”, seguiram correndo para buscar duas cervejas e participar do bloco “Ninguém é de Ninguém”. Isso era lá pela 0h30.

Imagine só a surpresa deles quando olham pra trás e dão de cara com as duas meninas que tinham acabado de deixar na casa lá em cima. Elas passam por eles cantando a marchinha, enredo do bloco que desfilava nas ruas:

Ninguém é de ninguém, mas todo mundo
É de todo mundo
No carnaval.


Assim é o carnaval.

Pra depois

A viagem Brasil-Bolívia-Peru foi sensacional! Tenho a sensação, agora, de que ela passou muito rápido...
O diário de viagens (ou tentativa de) foi publicado em parte aqui. Desisti. Ao menos no mundo virtual. Ele existe em folhas de cadernos, a maioria folhas pautadas, soltas e roubadas de um caderno grande que o Gorges levou. Não tenho interesse em continuar com aqueles textos no blog. Acho que precisam de mais trabalho, um olhar mais profundo sobre tudo o que aconteceu, sobretudo na expêriencia de convívio com a cultura diferente daqueles países. Apesar de sermos todos, afinal, vizinhos.

Dia 6 - 09/01/08 - quarta

Depois da terrível viagem no trem, o nome pelo qual ele ficou famoso logo se explica: o trem não mata, mas quase. Exagero. Sofremos um choque, de certa maneira: as poltronas duras, as bagagens mal fixadas por sobre nossas cabecas, o frenético sacolejar, o ruído de ferros batendo, o cheiro de terra e suor e as infinitas paradas nas "estacões"

O incrível foi que, enquanto eu, brasileiro, achava tudo aquilo um absurdo, os bolivianos que percorrem o trajeto com mais frequência acham bem natural: a mãe arruma e estende os cobertores no chão e o filho de 12 anos, de pijamas, deita sobre as poltronas duplas. No banheiro, um aviso em cima da torneira alerta: "esta água nao é potável". No vaso sanitário, sem lixeira nem papel higiênico, o buraco central mostra os trilhos passando rápidos. Qualquer coisa que se faça ali vai direto para o chão de fora do trem.

Tudo isso na segunda classe. Na primeira, os bancos sao semi-reclináveis e há ar-condicionado. Na última, as poltronas sao mais próximas umas da outras e é possível ficar um passageiro de frente para o outro.

Mas em todos os vagões – com exceção da primeira classe, segundo me disseram, mas não pude confirmar – as mulheres e crianças – de 7, 8 anos – entram para vender comida. É sempre a mesma cantilena triste e monótona e repetitiva de quem trabalha muito e constantemente em um serviço que não tem hora de entrada nem de saída – até na madrugada as crianças, algunas acompanhadas das mães e outras sozinhas, vendem pastéis, frangos assados, carnes no espeto, água e limonada.

No meio da madrugada, uma senhora e dois filhos sentam-se próximos à minha poltrona. Não há poltronas vagas para eles. Ela fica no chão, onde acomoda a menina de 5 anos e o garoto de 10. Viajam dormindo ali mesmo. Para eles, nada de anormal.

Chegamos a Santa Cruz de la Sierra, por fim. O alívio da chegada dura até nao encontrarmos vagas em nenhum dos hotéis próximos à rodoviária. Hospedamo-nos um pouco mais longe, próximo da catedral e da alaldia.

Santa Cruz é uma cidade simpática. Descobri, ali, que as bolivianas podem ser muito bonitas, mas perdi a oportunidade de conversar com as primeiras que nos disseram ¡Hola! na praça. Demoramos demais.

Simpatia da cidade e também do taxista Vítor, que nos levou para uma volta nos "anillos" de Santa Cruz - planejada em cerca de 20 anéis que seguem de modo concêntrico. Com ele, conhecemos a periferia, tão pobre quanto em Porto Quijarro.
Vítor veio de Cochabamba e é defensor ferrenho do governo de Evo Morales. "Ele está mudando, pensando nos mais pobres e batendo na elite branca. Toda mudança provoca resistência. É um choque para os pobres. A grande questão é a distribuição de terra e os cambas são contra isso".
Pelo que ele explica, colha é quem vem da regão do altiplano. São, como ele, favoráveis à política de Evo. Camba é quem vem do oriente do país. São contra o pensamento e as atitudes do atual presidente.

Vítor nos falou sobre o mal de Soroche, problema sofrido por quem não está acostumado com a altitude das montanhas. "Vocês têm de tomar um remedinho chamado "soroche", um chá de coquita antes de subir e deixar três ou quatro folhas de coca no canto da boca".

Andamos mais de meia hora em seu táxi. O trânsito aqui é um caos a toda hora do dia ou da noite. Os carros, na maioria modelos já considerados antigos no Brasil (de vez em quando aparece um bólido tipo Mitsubishi), são muitos e o som da buzina supera todos os outros barulhos. É a lei da buzina e da desorganização. É preciso paciencia para que o pedestre possa atravessar qualquer rua movimentada.

Dia 5 – 08/01/08 – terça

Depois de 21 horas de viagem de Floripa para Campo Grande, vivemos ainda momentos de luxo na casa de nosso amigo Tonetti, com direito a comida boa e banho na capital do Mato Grosso do Sul.

Depois de um jogo de sinuca e cerveja, viajamos mais 12 horas de ônibus em direção à Corumbá.

Hoje, pela manhã, chegamos de táxi à fronteira, onde dois oficiais bolivianos fardados checaram nossos documentos e carimbaram os passaportes. No táxi que tomamos em seguida, com destino à cidade de Porto Quijarro, tivemos o primeiro contato com o novo país e sua população: uma paisagem de terra batida com casas muito simples e mendigos na rua.

Francis, o taxista, se exaltou quando tocamos no assunto “Evo Morales”. Ele não concorda com certas medidas do presidente, mas lhe agrada o fato de Evo representar uma mudança na sucessão de governantes brancos.

Em Porto Quijarro, buscando uma passagem para o chamado “trem da morte”, conhecemos Rojas, um senhor de 67 anos que nos pede para vigiar sua bagagem enquanto vai telefonar de seu celular Nokia. É um modelo antigo, daquele estilo vulgarmente conhecido com “tijolão”.
A chuva na cidade é intermitente. Há goteiras dentro do terminal e muita gente esperando para entrar no trem, que atrasa quase uma hora. Lá dentro, ao lado das poltronas duplas pouco confortáveis, está Enrique Roca Ayala, um pedreiro que trabalha no sistema de iluminacão de Porto Quijarro. Junto dele viaja Felipe de Lima, um garoto de seis anos que nasceu em Campo Grande. O pai de Felipe, junto de Enrique, vendia pamonhas nas estações de trem até que a bebida cortou a relacao dos dois. "Ele comecou a ter problemas com álcool", conta o pedeiro que também é pastor protestante.

Felipe pronto pra briga

O pequeno Felipe, um guri que não pára de brincar com um broche dos Guns`n Roses, está sob os cuidados de Enrique, que levará a crianca até o povoado de Fontana. Os olhos brilhantes e o sorriso do pequeno Felipe sao revigorantes e fazem a viagem ser mais suportável.

Eles deixaram o trem faz tempo. Nesse meio tempo, as paradas nas estações são entrecortadas pelos apitos das mulheres e criancas que vagueiam pelos corredores vendendo comidas e bebidas - limonadas em baldes para quem se dispuser a pagar um boliviano pelo copo. A propósito, um real brasileiro vale 3,50 bolivianos no mercado paralelo.
Agora, 21h, estamos longe do destino e de saco cheio com a viagem que, ainda que cansativa, ainda não nos mostrou razão para se chamar “da morte”. Ao menos não para nós.


Dentro do trem


...

Vendedora no trem: crianças trabalhadoras


0h47 – o trem anda e pára com uma frequência irritante. Parece quebrado. Os bolivianos que nos desculpem, mas não consigo deixar de pensar: como é que fui me meter nessa?
O "trem da morte"

Tonetti, eu, Celso, Gorges e Faraco: tereré no campo "mais grande" do Brasil

Dia 3 – 06/01/08 – domingo

Saímos por volta das 15h de Floripa em um ônibus executivo com destino a Campo Grande. No banco da frente, um guri que já fez a viagem para Machu Picchu conta algumas de suas experiências: a dor física provocada pelas altas altitudes (“dor de cabeça é o mínimo que você vai sentir, o pior é o ouvido quase estourando...”), a criminalidade, a pobreza e a precariedade da comida boliviana.

Ele me pareceu meio preconceituoso, sei lá. Acho que vê os outros com os próprios olhos em vez de tentar buscar um novo olhar, diferente do seu. De qualquer forma, seu relato me deixou com certo receio.

Em Floripa - e nos lugares pelos quais passamos como Joinville – a chuva era intermitente. Posso ser piegas, mas quem sabe nosso caminho está sendo lavado para que nossa experiência seja revitalizadora... Vai saber...














Visão da varanda do quarto da Bruna, irmã do Gorges

Dia 1 – 4/01/2008 – sexta

A idéia é percorrer parte do Brasil, atravesar a Bolivia e chegar a antiga cidade-fortaleza de Machu Picchu. Esse é um caminho bastante conhecido por mochileiros que se aventuram a conhecer parte da América do Sul.

Com as malas prontas – uma mochila gigante e uma pequena mala de mão, saio de São Paulo para encontrar os brothers em Floripa. Vamos eu, Lucas e Leonardo. Ou, mais informal, Mi, Faraco e Gorges.

A primeira noite em Floripa é agitada. Encontro o pessoal e eu, Gorges e Finha vamos a uma balada na Lagoa que, não fosse a cerveja e as gatinhas do Finha, estaria fadada ao fracasso.

Ainda estamos no “bem-bom”. Na casa do Gorges com comida, cama macia e banho. Não sei o que vem pela frente. O que vamos encontrar? De qualquer forma, tendo a concordar com o famoso guerrilheiro que empreendeu uma viagem de maiores proporções pela América Latina. Acho que vou sair dessa viagem mudado, ou ao menos diferente. Bem diferente.

Curiosidade. Mente aberta. Vontade de arriscar. (propaganda da Shell em uma revista)

2+2=5?

Dois mais dois é igual a quanto? No regime autoritário de 1984 é quanto o Grande Irmão quiser

(Nineteen Eighty-Four, Companhia Editora Nacional, 2003)

O que passa pela sua mente quando se pensa em uma sociedade totalitária? Toque de recolher, julgamentos sem o devido processo legal, guerras? George Orwell imaginou, em 1948, um mundo sufocante onde governos tipo Hitler e Stalin seriam coisa de criança quando comparados ao poder do Grande Irmão, o Big Brother.

Clássico do que especialistas chamam de literatura política, 1984 traz um mundo aterrador, dividido em três superestados que estão em guerra permanente. O objetivo da guerra não é vencer o inimigo, mas manter no poder certo grupo dominante. As pessoas não têm liberdade de ir e vir e, muito menos, de pensar. Em grande parte das residências, um objeto chamado teletela “vê” o que todo mundo faz. O Estado detém a memória: todos os registros do que aconteceu antes da chegada do Grande Irmão ao poder foram modificados e sofrem alterações assim que uma notícia, artigo ou opinião entrem em conflito com as necessidades do momento. Nada havia além do Partido: “tudo se fundia e confundia num mundo de sombras no qual, por fim, a data do ano se tornara incerta”.

A coesão interna é obtida não apenas pela opressão, mas também pela elaboração de um novo idioma - a Novilíngua - que impediria que qualquer opinião contrária ao Partido fosse expressa. Trata-se de uma coleção de vocabulários enxutos que condensa ou remove sentidos a fim de restringir o pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passaria a não existir. A palavra mais usada no livro, seguindo o novo idioma, é duplipensar. Seu significado corresponde ao fato de o indivíduo conviver simultaneamente com duas crenças opostas, aceitando ambas.

“Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar."



O livro conta a história de um funcionário do Partido, Winston Smith (referência ao primeiro-ministro inglês durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill, junto a um sobrenome comum no Reino Unido: Smith) que passa da indiferença na sociedade em que está inserido à revolta. Para ele algo estava errado. Faltava alguma coisa. Não sabia o que sentia e tentava extravasar sua angústia escrevendo em um diário – sempre em um espaço fora do alcance da teletela. Se fosse pego, provavelmente se submeteria à Polícia do Pensamento, que “sumia” com as pessoas, apagando qualquer vestígio de que elas teriam um dia existido. Tornaria-se uma “impessoa”.


Com narrador em terceira pessoa, Orwell nos guia pelo caminho que Winston percorre na rebelião contra o sistema. Chega de ser mais uma engrenagem, mais uma peça da máquina do Grande Irmão. Naquele contexto, as coisas eram como o Partido quisesse que fossem. Em um desabafo, o protagonista escreve em suas anotações: “A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Admitindo-se isto, tudo o mais decorre”.

O Grande Irmão pode controlar aquilo que temos de mais íntimo e particular: o pensamento. Para o autor, é o futuro. Um pesadelo. A metáfora do mundo que estávamos, em meados do século XX, quando o livro foi escrito: invasão de privacidade, avanços tecnológicos a favor do controle aos cidadãos, a manipulação da memória histórica, as guerras contínuas cujo objetivo não é conquistar territórios, mas manter intacta a estrutura da sociedade. Será que o planeta em que estamos vivendo vai se tornar um 1984? Ou já vivemos sob o olhar do Grande Irmão e ainda não nos demos conta?

Disco sem preço



Eles provaram que não é preciso de gravadora para lançar um disco de sucesso. Em seu sétimo álbum, a banda inglesa Radiohead inovou na forma de comercializar seu trabalho. In the rainbows será lançado no dia 3 de dezembro como um box, contendo as músicas em CD, um disco duplo de vinil e um CD multimídia com faixas adicionais, fotos e letras. Mas qualquer um pode ter acesso às dez músicas do disco baixando pela internet no site da banda. Partindo da idéia “it´s up to you”, cabe a quem faz o download estipular quanto quer pagar pelos arquivos digitais. É você quem coloca o valor que acha que o CD vale, mesmo que seja zero libras.

Musicalmente falando, In the Rainbows preserva as características do Radiohead e mantém a personalidade da banda. Está tudo ali: as letras depressivas, os arranjos melodiosos, além dos elementos eletrônicos e a multiplicidade de sons simultâneos. Mas não é fácil de ser digerido. Não há singles, as músicas são fragmentadas, há ruídos e barulhos que nos obrigam ouvir mais de uma vez antes de sermos capazes de formular qualquer opinião.

As sonoridades não convencionais provocadas por sintetizadores, saindo do básico vocal, guitarra, baixo e bateria, deixam o álbum mais interessante. A propósito, o Radiohead decidiu disponibilizar no download todas as faixas porque consideram que ficar ouvindo músicas isoladas desvirtua a idéia de seqüência. Afinal, o CD foi feito para ser ouvido inteiro, na ordem em que as canções estão. Esse é purismo do Radiohead. Essa é a arte de fazer música independente de ter uma gravadora ou não.

O Contrato




Depois daquele dia, estabeleceu-se um acordo tácito entre aqueles dois mundos. Era a quarta ou quinta vez que se viam, que conversavam, que riam juntos. Ninguém forçou a barra. Ela, calma e boa de papo, olhava diretamente para os olhos dele. Ele, por sua vez, não tinha más intenções, nem primeiras, nem segundas e nem terceiras. Era simplesmente conhecer gente nova e fazer amizades.

Mas aquele último encontro selou o pacto. Só com o pensamento, com o sentimento, com a emoção, guardaram o beijo para a próxima vez. Nem precisariam falar nada. O encontro macio dos lábios seria o bastante para dizer tudo sem nada. O gesto é comunicação. O silêncio também.

A relação assumiu a característica do duelo calado. Vieram os joguinhos; o fazer de conta; o não ver que o outro estava presente; o desviar de olhos; e conversas rápidas, apressadas, pelo corredor, entre uma tarefa e outra do serviço cotidiano. Tão atarefados estavam que ele não dava bola para ela e ela não se interessava por ele. Mentira! Interessar interessava. Faltava coragem em admitir. Ele, idem. O acordo era quieto, frágil em suas bases não-verbais. Os jogos matam qualquer relacionamento. Por que têm de existir? Orgulho? Vaidade?
















Uma semana. Duas. Três. Nada de nada. As conversas cada vez mais rápidas, os olhares furtivos desviados assim que o outro levantava os olhos. Risinhos nervosos, tensos, fingindo não rir do que o outro falava, mas de uma piada que acabara de se lembrar. O fim.

Enfim, uma festa com o pessoal do trabalho. Ambiente descolado, alegre, feliz. Os copos de cerveja rolando. Dourados e com espumas. Brilhantes. Como quem não quer nada, depois de certo nível alcoólico no sangue (nada muito preocupante), ele chega junto. Tudo bem? Ela está bem, e responde-o aos ouvidos:

- Não faz isso – sussurra, falando uma coisa, querendo outra.

Ele chega mais ainda. As assinaturas do acordo se mantêm. Invisíveis. Caladas. Até se encontrarem no tão sonhado beijo macio, suave, ébrio. Ligeiramente ébrio.

Ninguém disse a ele que o acordo tinha prazo de vencimento. Acabou depois daquela noite, quem sabe naquela noite mesmo, logo após voltarem do mundo do beijo bêbado.

Nas outras festas, cada vez mais freqüentes para “alegrar” e “socializar” os funcionários, ela mostrou que era espécie de agiota e financiadora. Não adianta notas promissórias. Ela não deve nada. Não era só com ele que mantinha acordo, mas com muito mais gente do que se poderia imaginar. Acordos tácitos com vencimento em um dia. O prazo final. Depois disso, venceu. Não vale mais. Ela venceu ou venceu ela?


No no no no

Em uma casa de jogos de Londres, dois jogadores se destacam: uma mulher morena, de vestido vermelho e cabelos cheios amarrados por trás da cabeça, tipo coque, e um homem de trinta e poucos anos, usando smoking.
- Admiro sua coragem, senhorita... – ele diz. A câmera exibindo as mãos dele pegando um cigarro.
- Trench. Sylvia Trench. – ela se apresenta, olhando para a mesa – Admiro sua sorte, senhor...
Com o isqueiro, acendendo o cigarro:
- Bond. James Bond.

A música-tema de fundo, o ambiente esfumaçado, o olhar lateral à câmera. 1962. É a primeira aparição do espião inglês nos cinemas. Quem o interpreta é o ator Sean Connery. O filme, 007 Contra o Satânico Dr. No.

Criado pelo escritor Ian Fleming nos anos 50, James Bond é um agente secreto, também conhecido pelo código 007 (o duplo zero significa que ele tem licença para matar), que trabalha no serviço de espionagem e inteligência britânica. Nas palavras do autor, que foi agente do serviço secreto britânico durante a Segunda Guerra Mundial - experiência significativa para a caracterização de seu personagem mais famoso:

“James Bond tem 1,82 metro de altura e trinta e poucos anos. É moreno, de uma beleza cruel e olhos azul-acinzentados claros”.

Adaptá-lo à tela grande logo se mostrou um desafio. Para o papel foram cogitados diversos atores: Roger Moore – o preferido de Ian Fleming estava comprometido com uma série de televisão -, Max Von Sydiw, Cary Grant, Trevor Howard, Rex Harrison. O escolhido foi o pouco conhecido ator escocês Sean Connery, o eterno 007, para a maioria dos fãs.

Bond vai à Jamaica para investigar quem estava interferindo nos lançamentos de mísseis norte-americanos. É assim que ele chega a Dr. No (Joseph Wiseman), um cientista perito em física nuclear que chefia uma organização criminosa em uma ilha particular no Caribe. Bond conta com a ajuda de um agente da CIA, um nativo e de Honey Ryder (Ursula Andress). Saindo da água do mar, com cabelos loiros molhados e biquíni branco, ela surpreende-se com o homem que a observa (“Quem é você? Fique onde está!”). O surgimento da atriz no filme é um dos momentos de destaque na filmografia de mais de vinte filmes que o agente secreto já protagonizou.

A direção de Terence Young – que trabalhou em outros três filmes de 007 - exibe cortes secos nos momentos de ação. A mistura imagem e áudio provoca, em muitas cenas, o efeito desejado, como na seqüência em que o herói tem que enfrentar uma tarântula: música atingindo picos agudos e closes no rosto suado, junto com imagens da aranha subindo, provocam aflição.

A produção, de orçamento de cerca de um milhão de dólares (para os padrões da indústria cinematográfica, uma bagatela) estourou nas bilheterias, transformando Sean Connery em astro e James Bond em ícone da cultura pop. Os filmes que se seguiram, a partir de 007 Contra o Satânico Dr. No, seguem a fórmula que deu certo. 007 tem carisma, charme e elegância. Atributos que contrastam com a personalidade violenta – em uma cena ele mata sem dó um capanga desarmado de Dr. No -, as atitudes machistas – mulheres vistas como objeto sexual – e o cinismo.

Na larga filmografia, que se estende por diversos períodos históricos, os vilões são sempre inimigos do Ocidente (Dr. No é chinês). Os personagens, inclusive o herói, são estereotipados; as mulheres são todas beldades e os filmes, puro entretenimento. A história é um acessório – assim como os gadgets tecnológicos de Bond – para o divertimento do espectador. A eficiência de 007 Contra o Satânico Dr. No em divertir com qualidade.

(blog O Reverso)