Quinta roxa
Na outra quinta-feira, o florista também não veio. A depressão cresceu, a cabeça rodou e ela caiu no chão.
Na próxima quinta-feira, a mesma coisa. Dessa vez o apetite faltou, e ela começou com os remédios antidepressivos.
Na última quinta-feira do mês, ela não podia mais suportar a situação. Os remédios aumentaram, ela ficou três dias sem comer e foi internada no domingo.
No leito do hospital, seu melhor amigo veio fazer uma visita. Depois de tanto drama, ele, que estava drogado, concordou com a eutanásia. “Pra que viver se o amor não existe, se ele me abandonou, o jeito é eu encontrar Deus”, dizia ela, segurando frouxamente o braço do amigo gay. “Faz isso, por favor, senão eu mesma faço”.
- Então faça.
- Não, por favor. Você tem que me entender.
E ele fez. Tirou o gancho do soro e deixou-a falecer por um amor não correspondido.
Na quinta-feira seguinte, o florista apareceu com todas as flores juntas. Ele caiu doente, de uma enfermidade desconhecida pelos médicos da cidade, e não pôde entregar as flores e nem delegar ninguém para isso.
Quando soube do ocorrido, ele foi direto levar o mês de flores acumuladas para o cemitério. Não havia mais nada que ele podia fazer a não ser despejar as pequenas flores roxas no caixão da menina, naquela quinta-feira cinzenta.
O homem defronte não esboça sorriso. Dá uma leve coçadinha na ponta do nariz antes de ficar mirando fixamente o cineasta e seu aparato fílmico. A sala, bem iluminada, carrega a atmosfera de um ambiente alegre, porém tenso. Os dois estão na ponta direita do lugar, esperando para começar a entrevista.
- Pode falar. – diz o cineasta.
O outro começa o relato emocionado, mas antes da emoção propriamente dita, se passam três horas de gravação, com três pausas para trocar de fita.
“Era bem isso o que eu queria fazer”, pensa o cineasta. E é só isso o que lhe vem à mente.
***
Eu já não entendo de morte, de vida, de prosa ou poesia.
Eu não quero a aceleração dos carros, dos ônibus, do metrô. Vida acelerada é sinônimo de quê? De que dá pra assobiar e chupar cana ao mesmo tempo. E dá? Tem gente que consegue jogar baralho, mexer no computador, ler um livro e acariciar o gato. Tudo ao mesmo tempo.
Sei... Sei lá.
***
A câmera fazia o barulhinho habitual e a loira não tirava os olhos dos óculos de Ronaldo. Ela gostava de se ver, gostava de ser vista, apreciada, mirada, filmada. A loira dos saltos vermelhos não tinha muito pra falar. Ela se embananava toda, ia e vinha, saía e voltava. Que raiva!
Não sei o que tou fazendo, nem onde tô indo. Sei que tô... Sei que tô indo...
Learning...
Uma ficção diferente das outras?
Consuelo Lins, no texto "Documentário: uma ficção diferente das outras?" define documentário como a forma de cinema que sempre se apoiou na imagem concebida como uma boa representação do real.
Para isso, ela estabelece cinco pontos de partida:
1) Todo documentário é um artefato construído por blocos de espaço-tempo, fabricando seus efeitos, impressões, sensações, pontos de vista, visões de mundo.
2) No entanto, por mais artificial que seja a imagem automática, há sempre um “grão de real” que adere à imagem e ultrapassa toda figuração (=natureza paradoxal);
3) Não há técnica, metodologia ou estética mais aptas que outras para captar o real e o mundo;
4) O ato de filmar implica uma metamorfose daqueles que filmam e dos que são filmados, que pode ser assumida ou disfarçadas por convenções estabelecidas;
5) O documentário não tem uma essência realista e não é necessariamente mais próximo da realidade do que a ficção. Ele foi criado foi criado a partir dessa crença, que é na verdade uma invenção, produzida por práticas e discursos específicos. Isso não impede que essa forma de cinema tenha aberto belas vias para o cinema em geral.
DVD duplo da VII Semana do Jornalismo
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O lançamento do DVD da VII Semana do Jornalismo acontece nesta segunda-feira, dia 24 de novembro, em uma confraternização no bar Volantes às 19h.
O produto, vendido a R$ 15, conta com dois DVDs. O primeiro disco apresenta o compacto das palestras e mesas de discussão. O disco II conta com entrevistas exclusivas com alguns convidados: Fred Melo Paiva, Arthur Dapieve, Ruy Castro, Cremilda Medina, Roger Rodriguez, Diego Barredo e Marcelo Tas.
O lucro será revertido para o Centro Acadêmico Adelmo Genro Filho.
***
Era relativamente fácil e, inexplicavelmente, nunca feito : pegar as palestras e mesas de discussão e colocá-las tudo num DVD para registro, curiosidades e formas de difusão além dos cinco dias do evento.
Para nós, da VII Semana, faltou sentar e planejar tudo antecipadamente. As coisas foram surgindo, as tarefas, acumulando, e tivemos que tomar decisões em cima da hora, algumas unilateralmente, inclusive.
As coisas não foram muito planejadas em dois aspectos: a transmissão ao vivo e a autoração do DVD.
Nas seis semanas anteriores, a transmissão ao vivo ficava por conta do pessoal de ensino à distância, do LIBRAS, que, comandado pelo técnico Roberto Vargas, faziam o trabalho, ao qual já estão acostumados, sem grandes problemas.
Mas na VII Semana, eles não puderam nos ajudar. Na abertura, segunda-feira, o material que tínhamos gravado estava na baixíssima qualidade da transmissão ao vivo. Colocar a primeira palestra e mesa de discussão no DVD seria um problema. O jeito foi nos (re)organizarmos para, além da captura pela câmera que estava transmitindo ao vivo, gravarmos em qualidade aceitável com as câmeras mini-DV do curso.
Essa organização em cima da hora exigiu custos. Estamos trabalhando com aproximadamente dez acontecimentos de mais de uma hora. Em formato AVI (o de mais alta resolução), uma hora de fita equivale a 13 gigabytes! Haja fitas mini-DV, e espaço físico para tanto. Tivemos que improvisar.
Fizemos assim: além da câmera do “ao vivo”, colocamos duas outras câmeras, uma ao lado da “ao vivo”, e outra mais próxima ao palco, do lado direito da platéia. Essas câmeras gravariam com mini-DV e teríamos chance de fazer uma edição mais elaborada, com mudança de planos e angulações. Se duas câmeras filmam a mesma coisa, é fundamental sincronizá-las. Seria a função da claquete. Nós fazíamos no “olhômetro”: três, dois, um – um olhava para o outro e apertava REC.
Até que deu mais ou menos certo. Achamos que o lance do DVD não era, necessariamente, inserir todas as palestras e mesas (até porque temos o limite de mídia de 4.7GB ou duas horas de gravação na qualidade EP). Tínhamos que editar no máximo trinta minutos que capturariam, na medida do possível, o espírito do evento.
Então, de noite, quando as palestras acabavam, uns iam jantar, outros iam encher a cara no bar. O pessoal do vídeo tinha que agilizar tudo para o dia seguinte. O conteúdo das fitas do dia era capturado direto para um PC, por cabo firewire, e, se possível, a edição do dia já era feita. Isso porque era difícil trabalhar com arquivos de mais de 20GB por vez.
Nosso amadorismo prejudicou o resultado final. Gravamos na melhor resolução – formato AVI -, mas o DVD (todos eles, desde o camelô com “Tropa de Elite” à edição especial gold deluxe de “O Senhor dos Anéis”) compacta para o formato MPEG2, que ocupa um terço do tamanho do AVI. Mas como nos dividimos para editar as palestras e mesas, alguns exportaram em mpeg2-dvd, outros em outras formas de mpeg-2. Não sei por que, na hora de jogar tudo no DVD alguns arquivos não eram lidos.
Minha solução, pensada no auge do nervosismo: reconverter tudo para AVI e jogar em AVI no programa, que, por sua vez, readapta o formato para mpeg2 automaticamente.
Só fiz isso porque tive o auxílio de uma máquina potente e de um HD externo. Mas creio ter feito uma das piores coisas. Apesar de ter consultado algumas pessoas para saber se essa reconversão prejudicaria a qualidade – e esses consultores terem respondido “não” -, me pareceu, vendo o resultado final, que estraguei as imagens.
Dois
Eu pensava que era fácil autorar um DVD. Com os vídeos na mão era só jogar tudo, colocar um menu, umas letrinhas e listo. Mas, de novo, parte por amadorismo e parte por trabalhar com muitos arquivos pesados, demorei mais do que esperava.
Nenhum programa – desses tipo Roxio ou “faça seu DVD em five minutes” – servia para minha idéia de DVD, com menus animados, fontes coloridas, música de fundo. Optei pelo Adobe Encore, o mais profissional dos programas de autoração.
Foi difícil aprender o básico. Algumas coisas tive que readaptar. Até agora não sei por que o programa não aceitou o menu animado. Tive que usar uma figura estática do photoshop. O som no menu deu problema e travou infinitas vezes na hora de terminar (depois de testes bem sucedidos, diga-se de passagem). Tive que deixar sem som.
Resumo: foram jogados no lixo 12 mídias de DVD. As últimas por mais amadorismo: eu esqueci que, para rodar em aparelhos de DVDs, a velocidade de gravação deve ser bem baixa. Nervoso que estava, coloquei em 4x, mas 8x já dá conta do recado.
Finalmente, depois de muito trabalho e tensão, o primeiro DVD da Semana do Jornalismo estava pronto. Não do jeito bom, não do modo ideal (a qualidade de imagem deixou a desejar, a edição, cortes e planos, podia ser melhor, o som nas entrevistas deixou (muito) a desejar, faltou equalizar o som de tudo, a cobertura do churrasco do Dalton devia ter sido mais contundente), mas estava pronto.
Entrevistas
Só um DVD com o compacto das palestras, nos parecia, muito pouco. Desde o começo, tínhamos a idéia de entrevistar alguns convidados. Tínhamos que aproveitar a oportunidade de encontrar os caras bambas do Jornalismo que viriam.
De início, veio a idéia de um bate-papo antes de entrevistas. Mais do que uma lista de perguntas prontas, no estilo de alguém que precisa preencher um relatório (ou pauta, como chamam por aí), o objetivo era conversar, conhecer as idéias daquele pessoal, bem no estilo das propostas de Cremilda Medina e o famoso diálogo possível. Mais ou menos como escreve Arlindo Machado no livro A televisão levada a sério:
“A eficiência do diálogo na televisão (em nosso caso, para o DVD), depende de uma autonomia real (...). Não pode haver debate quando há o constrangimento de um script determinando o que se deve dizer, de que maneira dizer, ou em que circunstância intervir”.
Enfim: diálogos. E longe da produção do estúdio. Queríamos ir até o lugar onde os convidados estavam, quem sabe gravar com a praia de fundo. Mas a idéia não deu certo. Precisávamos de carros para chegar, baterias potentes (só disponibilizadas para as câmeras de TCC) e microfones de lapela que não sofressem interferências.
Resolvemos usar o estúdio da UFSC mesmo. Então tínhamos que arrumá-lo. Logo na segunda-feira, fiquei um bom tempo conversando com Henrique Guião, do Labtele, sobre nossa propostas, sobre luzes, sobre locais onde o entrevistado ficaria mais bem posicionado. Ele fez a cenografia e as luzes. Optamos planos que mostrassem os bastidores: a câmera aparecendo, a televisão (-zinha) de fundo, etc.
Com a produção pronta fomos “para o ar” com Fred Melo Paiva. Eu e Fernanda Dutra. Eu, com uma folha na mão; ela, com um caderninho. Mas não estava escrito nada nem comigo, nem com ela. Nada melhor para conversar em vez de entrevistar.
Com o resto das entrevistas foi mais ou menos a mesma coisa. A idéia era deixar livre para participar das entrevistas quem quisesse, não só para o DVD da Semana, mas para outras atividades do curso.
Acho que deu mais ou menos certo, com exceção (de novo) da qualidade da imagem e, principalmente do áudio. A tentativa de conversa, não tanto. Pareceu entrevista mesmo no final das contas.
Final
Temos, obviamente, muito (muitíssimo) que aprender e melhorar. De qualquer forma, para um primeiro experimento, me pareceu bom.
Para as próximas semanas, acho que deve ter uma equipe fixa só para se dedicar aos vídeos e à produção de DVD. Quanto mais gente comprometida com o resultado final tiver nessa área, a carga (pesadíssima) vai ser aliviada. É um trabalho estressante e exaustivo, mas vale a pena quando se chega no produto final. Mesmo sem menus animados nem sons de fundo.
FIZ+Sotaques I
Assim, com todas as entrevistas e imagens de apoio enviadas para a sede, o programa é editado com base nas falas das pessoas, sem o aparecimento (muitas vezes desnecessários) de um repórter asséptico ou da chamada voice-over (ou voz de Deus).
Eu participo firmemente há umas seis ou sete edições e. preparando minha parte para ser exibida toda segunda-feira, às 22h45 no FIZTV (www.fiztv.com.br) – e no canal 16 da TVA analógica e no canal 20 da TVA digital, em São Paulo (capital e interior), Santa Catarina (Florianópolis e Camboriú), Paraná (Curitiba e Foz do Iguaçu), Rio de Janeiro (capital) e Minas Gerais (Uberlândia) - eu aprendi bastante muita coisa, a maioria delas dificilmente de ser veiculada por se tratar de minha relação subjetiva com os temas e, principalmente, com os entrevistados.
O Fiz+Sotaques tem o diferencial da história ser contada pela voz dos diversos entrevistados, com os sotaques característicos deles. Mas não sejamos ingênuos. Isso é simplesmente a linguagem que adotamos. A edição está presente como em todos os outros produtos jornalísticos e o resultado não deixa de ser o recorte que nós, jornalistas, demos ao tema. Me parece, porém, que a história pela na voz das pessoas é mais interessante, dá um ar mais do tipo "a história deles contada por eles" (e daí o slogan do programa: "Fiz+Sotaques: jornalismo no plural").
Me fascina esse método – bem utilizado pelo documentarista Eduardo Coutinho – por ser diferente da linguagem que se usa habitualmente na maioria dos veículos de TV, em que o repórter aparece mais como o doutrinador, o sabidão, ainda que, repito, as várias vozes estejam a favor de uma edição.
O programa inteiro pode ser visto em www.sotaquesdobrasil.blogspot.com
Abaixo, o último programa, dividido em dois blocos:
¡¡Películas!!

Eu tenho um vício, uma coisa que muitas vezes me atrapalha a vida. Eu largo os estudos e o trabalho para depois, esqueço das leituras básicas da faculdade e cancelo compromissos. Não é droga, não é álcool, nem chocolate. O meu problema é com filmes.
Acontece de repente. Surge uma ordem no meu cérebro. Sou obrigado a cumprí-la no instante em que ela aparece. Ou, no máximo, quando não é possível ter um DVD na hora – como num ponto de ônibus, na sala de aula ou no meio de uma festa -, até dá para planejar para depois, desde que o depois não demore muito.
“Preciso ver um filme.” Chega a ser uma necessidade. Tudo fica para outra hora. Se tenho muitas coisas para fazer, minha mente perturbada acaba bolando uma estratégia para que eu possa saciar o vício sem muita culpa.
É o que está acontecendo agora. Quando eu penso que devia – e em muitos casos, devia mesmo – estar fazendo outra coisa que não assistindo a uma película, meu pensamento me diz que ver esse filme vai me fazer bem.
A desculpa do momento só funciona com filmes em inglês. “É para desenvolver vocabulário e fluência na língua”, diz uma parte de mim, tirando qualquer peso na consciência. Agora que já tenho as coisas mais difíceis para viver os próximos três meses nos Estados Unidos – o visto norte-americano e financiamento para a viagem -, parece imprescindível assistir tantos filmes falados em inglês quanto possível.
E assim vivemos todos. Cada um com suas manias e vícios...
Pedaço do livro da estrada

...porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso...” (On the road, de Jack Kerouac, p. 25)
13
O elevador está subindo em direção ao nono andar. Passa pelo quarto, acelera no quinto e vai voando pelo sexto.
Sétimo.
No oitavo, o visor dos números em vermelho pisca. Alguma coisa deve estar errada. Em vez de parar no nono, como solicitado ao botão, o elevador sobe mais. O visor, que devia sinalizar, pela ordem, o número dez, chega ao doze, vai ao onze, depois treze e catorze. As luzes de repente se apagam e levam um segundo para reacender.
Um segundo, será? Ouve-se um barulho que ecoa pelo fosso. O elevador dá um tranco e as correntes que o sustentam no novo, décimo ou qualquer outro piso, correm soltas. Começo a cair em direção ao abismo.
Tento me acalmar. Daqui a pouco a corrente vai segurar de novo, fica tranqüilo. No milésimo de segundo seguinte o pânico se apodera de mim. Não há nada... O elevador está caindo cada vez mais rápido. Não há nada que eu possa fazer, mas nesse instante eu sou de alguma forma impelido para cima. Minhas mãos buscam desesperadamente o interfone, mas não existe interfone nesse elevador.
A queda livre se aproxima do fim, eu posso sentir. Pressiono os botões, se eu apertar o três é capaz que ele pare no terceiro andar. Não. Aperto a campainha várias vezes. Nada acontece.
Espero já o baque e visualizo o chão, os destroços. Imagino, em uma fração de milésimo de segundo, a dor. Pelo menos eu devo morrer rápido. Morrer? Alguém tem que saber que eu estou aqui. Eu vou morrer. Alguém tem que saber que eu estive aqui, que essa merda caiu, que eu tentei de tudo para sobreviver.
Uma última tentativa. Quem sabe apertando todos os botões de uma vez eu não consigo fazer isso parar. Mas minhas mãos não conseguem preencher as duas fileiras de nove botões. É impossível. Eu aperto desesperadamente um único digito. O número 13. Treze. Treze. Treze. O elevador vai encontrar o chão. Chegou a hora. Hora de morrer. Treze. Treze. Treze.
Quando eu vejo que não tem mais jeito de escapar, acabo apelando, involuntariamente, com todo o medo, peito ofegante, pânico e descontrole, por acordar.
Carta de um ex-suicida a uma amiga
Cidade de Odem, 21 de outubro de 2028
Cara amiga de San Anden, te escrevo para agradecer a ajuda naquela noite chuvosa chata, em que eu recusei sua bebida para ir embora. Lembra? Você tomou o último trago e foi embora com o guarda-chuva de flores azuis e eu segui sozinho para casa. Voltei rápido, enfrentando a chuva chata. Dormi. Adormeci. Queria desmaiar. Mas o sono não foi fácil, embora revigorante. Assombrações. Eu vi o escorpião.
Ele surgiu em cima de um fogão, sobre alguns temperos. Alho. Me assustei. Era pequeno, vermelho e, tinha certeza, mortal. Um amigo olhou e reconheceu o artrópode. Não fez nada e o escorpião vermelho logo se escondeu.
Pensei que não era besteira e fui dormir. Na cama ao lado, meu amigo não estava. A cama ficou vazia e foi por ela que o escorpião chegou. Subiu à parede e parou pouco mais alto que eu. Eu não podia fazer outra coisa. Uma chinelada rápida ia dar cabo do animal. E foi isso que fiz. Antes ele que eu.
Mas a força não foi suficiente. O pequeno, vermelho e mortal escorpião não morreu. E ainda caiu em minha cama, avançando contra mim. Visualizei o futuro. Eu seria envenenado e logo estaria paralisado. A dor não seria forte, um pouco como picada de abelha. Mas quanto mais eu me mexesse, correndo para pedir ajuda e resfolegando enquanto descesse a escada, o veneno se espalharia e me mataria. Em breve eu estaria morto e ninguém ficaria sabendo disso. Eu precisava fazer alguma coisa, gritar, buscar ajuda. Eu preciso do soro!
Daí o medo me dominou. Senti o horror do frio na barriga se espalhar ad infinitum. Mirei o escorpião nos olhos. Ele já não era de todo vermelho. Sua cabeça estava branca. Seu olhar em minha direção. Eu ainda tinha tempo, mas pouco. O velho medo tira a angústia por alguns momentos. Ele investiu contra mim e quase me pegou.
Desvencilhei-me e voltei a dar-lhe outra chinelada na cabeça. Agora com mais força. Era matar para não morrer. E ele ainda sobreviveu, cambaleando, provavelmente perdendo os sentidos.
O filho da puta ainda teve tempo de investir contra mim outra vez. O chinelo voou mais uma vez e o escorpião vermelho, branco, pequeno e mortal estava morto. Eu matei o escorpião. Tive que matar o escorpião. Todos temos que matar o escorpião. E então me curei.
Cara amiga de San Anden, obrigado pela força. Eu matei o escorpião.
Vai!
O professor Karam, na aula de Teoria do Jornalismo, deu o estalo que faltava: “... É preciso muito vocabulário, muita leitura e treinamento. Muito treino”. E com o sotaque gaúcho típico: “É pra ralar”.
Ele tá certo. Hora de voltar. Me lembrou do meu amigo Rodrigo, gaúcho de Santa Maria que morava comigo em Córdoba. Perto da hora do almoço, ele, que me chamava de “Pedro Bial, o repórter boêmio”, variando de vez em quando para “repórter da noite”, disse:
- Acorda, Pedro. Vamos atrás da notícia!
E ele tava certo também.
Ituzaingó, 1480

Desde 16 de julho eu estou no Brasil. Mas sair da Argentina não foi fácil. Deixar os amigos que viraram família durante o tempo de intercâmbio, a rotina já acostumada em Córdoba e, principalmente, o receio de voltar, a certeza de que as coisas mudaram. Porque as coisas sempre mudam.
De qualquer forma, acho que a questão com a qual um dia todos vamos nos deparar sobre a vida, sobre momentos e instantes, é uma só, forte e decisiva: E aí, valeu a pena?
De minha parte, impossível esquecer tudo o que essa viagem representou e o que o número mil cuatrocientos ochenta simboliza.
¡Qué bueno vivir con esta gente!
Machuca
Machuca (Chile, Espanha, 2004). Dirigido por Andrés Wood. Com: Matías Quer, Ariel Mateluna, Ernesto Malbran. Sinopse: Gonzalo é um garoto de classe média que estuda no Colégio Saint Patrick, o mais conceituado de Santiago, Chile. No governo Allende, garotos pobres passam a estudar ali, entre eles está Pedro Machuca. É então que ambos passam a se conhecer e a firmar uma amizade, apesar do abismo social que separa as classes econômicas a que pertencem. A política se mistura com a história particular dos dois. Um caminho irreversível do qual nunca poderão se esquecer. Nem se quisessem.
Imagens fortes. É isso o que tenho a dizer sobre Machuca, um filme daqueles que você sai “estranho” depois das quase duas horas de projeção. É um estranhamento indefinível, como sentir algo entalado na garganta, um tipo de sufocamento, mas longe do melodrama simples e das lágrimas fáceis.
Imagens fortes. Não no sentido de se ver sangue, corpos despedaçados, tripas à mostra. Forte no sentido de significativas, de potentes. Imagens que expressam idéias com as quais não sabemos lidar ao final. O que eu achei do filme? A velha pergunta feita desde os primórdios do Cinema traz uma simplicidade minimalista. Existem filmes que não se enquadram no “sim, gostei, vamos tomar sorvete” ou “não, que filme ruim, vamos dormir”. É difícil assistir a Machuca e ficar impune.
A narrativa é clássica e o que chama a atenção não é o claro antagonismo militares x “subversivos”, que já vimos tantas vezes em outras produções. Aqui a relação é mais íntima, difícil de ser explicada. Trata-se de ver a grande mudança que acontece na vida de Gonzalo, mudança que não é explícita em um comportamento radical ou em atitudes violentas. Mas, sim, na significação de um olhar. Olhar de incompreensão. A visão brutal de realidade tão diferente da sua. Uma visão que vai mudá-lo para sempre.
A política associada diretamente na vida das pessoas, alterando-as. O menino que amadurece. É levado a amadurecer. Uma série de fatos que o levam ao lugar onde Machuca vive. Ali, o lugar que o transformará. Onde ele vai se ver enfrentado por militares e vai se safar usando o mecanismo de defesa que a vida lhe ensinou. “Eu não sou daqui. Olhe para mim!”.
Os abismos de classe, os opostos ambientes, o abraço da mãe que não imagina o que está se passando na vida interior do filho. Quem sabe nem ele mesmo o saiba, mas de alguma forma, Gonzalo tem uma certeza: alguma coisa está acontecendo. E ele não sabe o que fazer. Nem nós, depois de ver o filme.
Emilio do Cinema
Entrei na sala de Emilio, o secretário/supervisor do curso de Cinema da Universidad Nacional de Córdoba, sem a intenção de sair de lá conhecendo mais sobre o país em que estou vivendo desde março. Com seu jeito frouxo de pronunciar as palavras, ele fez uma comparação interessante entre Argentina e Brasil, e revelou o que sentiu quando foi ao Brasil pela primeira vez, em 1982, e viu os negros que são raros em grande parte da Argentina.
“Negros argentinos? A gente quase não vê. Você viu algum em Córdoba? Se viu foram um ou dois e pode ser que não sejam argentinos.”
E mudando de assunto, mas não de tema: “O Brasil é um país mais plural. Na Literatura, por exemplo, há uma produção de Norte a Sul que representa o país, de certa forma. E os roteiros de televisão refletem isso quando adaptam as obras literárias para a TV. Aqui, mesmo os grandes da Literatura – Borges, Cortázar, Sábato -, refletem o pensamento de Buenos Aires. Claro que Buenos Aires tem 20 milhões de um total de 40 milhões de argentinos. É meio país. Mas a Argentina não é só Buenos Aires...”
Emilio intercala os assuntos de forma quase imperceptível. Do carnaval como expressão social, ele traça nossas semelhanças – “a classe média e seu pensamento são exatamente iguais nos dois países” -, fala sobre resquícios africanos na música típica de Córdoba, o cuarteto, vai para nossas músicas, que têm sempre a palavra “alegria” como lugar-comum, e chega ao Cinema, comparando obras que falam de um tema muito parecido, mas o tratam de formas diferentes, refletindo as diferenças entre Brasil e Argentina: Cidade de Deus e El Polaquito.
Quarenta e cinco minutos depois, eu nem lembrava que tinha ido ali para definir o meu futuro na universidade.
CQC brasileiro

Domingo passado foi dia de juntarmos a brasileirada aqui da casa para assistir ao CQC brasileiro. O programa, comandado por Marcelo Tas, existe na Argentina há mais de 10 anos e faz um sucesso absurdo.
A versão brasileira estreou em março e já chegou causando polêmica. Em um sinal claro de abuso de poder e de censura em plena era democrática (inclusive com um ex-operário como presidente), proibiram os repórteres do programa de entrar no Congresso Nacional.

Para tentar mudar isso, o CQC está em uma campanha buscando assinaturas para reverter essa decisão de nosso querido Legislativo. Basta entrar em www.cqcnocongresso.com.br e assinar.
Me parece que a decisão de barrar esses repórteres brasileiros na chamada Casa do Povo veio da natureza essencial do CQC. Tirando a parte de humor fácil e de encenações bobas, há alguns quadros que realmente fazem aquilo que outros veículos não fazem. Como na frase proclamada por Marcelo Tas todo final de programa: "Eles estão à solta, mas nós estamos atrás". E isso incomoda muita gente.

Brasileirada na Argentina
Pena que o jogo foi feio, a seleção deu mais um fiasco e o empate teve sabor de derrota.
Mas pensando melhor, se perdendo ou ganhando a gente ia ou ser zoado ou ser odiado por aqui, acho que para nós - brasileiros morando na Argentina - o empate foi mesmo o melhor negócio.
Na foto 1, a brasileirada da casa (com exceção de Rodrigo): André, Eduardo, Rúbia, Ivia, eu, Taísa, Juli (epa, essa é argentina) e Fernando Fernet.
Foto 2: Ivia pinguça e a bebida dos dos deuses; Foto 3: Juli x Taísa "mengão êo".


Che completaria 80 anos no último sábado

A camiseta ficou famosa, a foto foi a mais reproduzida do mundo e os pensamentos de Che viraram citações nas agendas chiques de jovens da classe média. Exceção talvez de movimentos como o Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, que ainda usa as mensagens de Ernesto Guevara para buscar alternativas ao modelo hegemônico neoliberal. Mas mesmo ali, a bandeira está mais presente que o pensamento. E os olhos de Che, com o fundo de uma estrela branca em contraste com o vermelho, significam pouco ou nada. O que ele estava olhando naquele momento? O futuro da América Latina unida? Um grande bolo de chocolate? Ou quem sabe alguma mulher bunduda que passava ali?
O grande socialista e sonhador virou mercadoria. A estrela de cinco pontas, símbolo do Exército Vermelho Bolchevique, virou logotipo de marca de cerveja. E as palavras do peruano José Carlos Mariátegui, o chamado primeiro marxista da América, nunca foram mais atuais e verdadeiras, apesar de terem sido escritas há oitenta e três anos:
"A civilização burguesa sofre da falta de um mito, de uma fé, de uma esperança. O mito move o homem na Historia. Sem um mito, a existência humana não tem nenhum sentido histórico. Os povos capazes de uma vitória foram os povos capazes de mitos múltiplos."
Para ele, os mitos não seriam bem ilusões falsas, mas sim crenças mobilizadoras que condensam esperanças coletivas e desejos populares.
O mito de Che Guevara serviu para aquilo contra o que ele mais lutou: o modelo capitalista.
MUY INTERESANTE pero no tanto...
Muy Interesante traz, nesse mês, uma matéria de capa sobre a mente humana com os seguintes dizeres: “Mente Criminal: podremos predecir el delicto? La ciencia investiga el cerebro para saber si el delincuente dice la verdad”.
Na primeira página, quem sabe a melhor da revista, uma charge de folha inteira de Quino, o criador da Mafalda, a menina que fala de política nos termos mais comuns e ingênuos (será?) do cotidiano.
A diagramação, aqui, é um pouco mais sóbria, digamos. Há espaços em branco sin dramas e não há a característica profusão de cores e imagens de infográfico da SUPERINTERESSANTE. Quem sabe um meio termo seria o ideal, afinal os infográficos são uma parte importante na transmissão da mensagem, principalmente quando eles estão na medida certa: nem de mais, nem de menos.
No olho da matéria de capa já perdemos a vontade de ler o texto: “com a ajuda de técnicas modernas biomédicas, os cientistas tentam associar condutas delitivas com áreas do cérebro. Mas ninguém tem ainda a ultima palavra sobre as raízes profundas da delinqüência. Para que eu precisaria ler o resto? O que o texto poderia me acrescentar?
Com um texto picotado em muitíssimos intertítulos (média de dois por página) e com mesmo estilo em todas as matérias (foram jornalistas ou computadores quem escreveram?), a matéria de capa traz algumas coisas legais, mais questionamentos, como o fato de, nos EUA, o país dos processos, muita gente estar sendo absolvida de crimes pelo estudo do cérebro. Algo como “meu cérebro é o criminoso; eu, não” - o que um professor de Direito e Psiquiatría da Pensilvania rechaça: “Algumas pessoas com transtornos cerebrais semelhantes podem não serem violentas. Os cérebros não cometem crimes, quem os comete são as pessoas”. Isso nos leva ao “entorno” de um indivíduo, ao meio em que vive, em que foi criado, elementos que, de certa forma, influem seu comportamento futuro.
E a matéria surpreende pela discussão que exibe: “nada determina o comportamento dos indivíduos como os processos que têm lugar no cérebro”, diz um professor de Psicologia de Harvard.
É, não estava tãããão mal. O fechamento é assim: “De fato, pode a neurociência contribuir a criar um mundo mais seguro? Ninguém pode hoje assegurar isso. Como não se pode dizer que seja um argumento irrevogável para não levar um criminoso à prisão”. Conclusão que a que já havíamos sido apresentados, mesmo antes de ler o texto.
Ah, há um box preguiçoso na última página. É um depoimento de um doutor em neurologia escrito por ele, com seus jargões médicos misteriosos. A função do jornalista seria entrevistar o médico e fazer a decodificação ou tradução para seus leitores, não? Ou se esqueceram de que não sou médico nem estudante de medicina?
Outro sinal de preguiça, tosquice e má vontade é o trecho do livro que o físico Stephen Hawking escreveu com sua filha Lucy. Publicaram uma parte do livro dele e acham isso o máximo. Deve ser para fazer publicidade, afinal a revista “sorteia dez livros entre as primeiras 100 cartas que chegarem à redação”. Mas mesmo para uma matéria publicitária seria interessante um texto jornalístico. A vida de Stephen Hawking, afinal, sempre vale boas notas.
E a matéria mais bem-humorada (e a melhor da edição): “Con la boca abierta”. Vamos falar de bocejo, por que bocejamos, para que serve o bocejo? Comigo foram três ou quatro bocejos entre as cinco páginas. Não porque estavam chatas de ler e sim porque o bocejo é uma das condutas mais contagiosas. É só ver alguém bocejando que você acaba também o imitando. E isso só entre humanos e certos primatas. Crianças antes dos 5 anos não se contagiam e autistas também não. Incapacidade de conectar-se com o próximo?
Interessante, ao menos, é a idéia de que o bocejo tenha uma função evolutiva fundamental. Como as pombas. Uma pomba vê um pedestre se aproximando e voa, sendo seguida imediatamente por suas companheiras, ainda que essas ignorem a causa do alarme. Então, o bocejo poderia ser uma ferramenta para propagar o estágio de vigilância em um grupo. Hum... E eu que pensava que era só para entrar oxigênio no cérebro (argumento que a Ciência já desmentiu com experiências usando gás carbônico).
Seguimos com matérias não tão interessantes, ou com pauta interessante, mas mal aproveitadas pelos repórteres e editores, como a “Visita à fábrica de gênios” no MIT (Insitituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA) e uma matéria histórica sobre Tutmosis III.
Se a nossa SUPERINTERESSANTE se destaca sobretudo pelos infográficos, a MUYINTERESANTE traz fotos muito bem feitas, como na série sobre as abelhas. Mas nada mais que isso.
Termino a revista com um jogo de sodoku, talvez mais interessante do que a revista do mês.
Velhice
Sinais dos tempos...







